BELLS
Todo covarde é malandro…

É tão covarde, cuja única função é salientar quem é ou quem pode ser. Ele andava sempre pros lados, com o rosto erguido, uma garrafa de cerveja na mão e o cigarro entre os lábios. 

 ”Trazer aquilo que te mata, saber sobreviver aquilo que te destrói” Dizia com um charme inabalável, sucumbia o cigarro peito adentro e serrava os olhos ”Malandragem, malandragem criança… ” 

Num breu de silencio o seu caminho era tortuoso e o levava para um destino incerto, certamente o levaria a lugar nenhum, lutava como bravo homem que era ou julgava ser, dependia de todas suas projeções e de todo os seus planos falidos pra acreditar que um dia, um dia, algo iria acontecer. Nada dava certo, nada fazia certo. 

Em raras noites de Sobriedade conseguia lembrar-se daquela que esculpia seus dias. Metade mulher, metade amargura. Mariane embalava alegria no verso do que era tristeza. Mentia e só cobria as noites tristes, usando seu corpo como poesia e seu amor… Bem ele a amava, era o que se dizia.

Indomado, um dia saiu de casa pra nunca mais voltar, só pensando que vida era aquela que pra ele queriam dar. ”Fui comprar cigarro, volto mais tarde” E quem disse?  Partiu para o mundo, conheceu novas mulheres, tatuou-as no peito. Tudo muito rápido, tudo muito bem feito. 

Metade homem, metade vida. Mariane voltou a estudar, conseguiu um emprego. Mentira. Mariane se perdeu, como o cão abandonado na claridade de uma rodovia. Ela o amava, era o que se dizia.  

 ”Trazer aquilo que te mata, saber sobreviver aquilo que te destrói” o que saia daqueles lábios pintados da pura cor que a torturava. Apertava os dedos em meio a destilada bebida companheira ”Malandragem, todo covarde é malandro..”    

Isabella Trad 

Eu te amo não diz tudo.

”O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.

Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. “Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho”.

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato.”

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.”

Martha Medeiros